entrevista // daniela saraiva Nos bastidores da TV
Em conversa com a Revista, a atriz Daniela Saraiva conta como é participar de séries como House e Desperate housewives, descreve o comportamento das estrelas nos sets e revela o mico que passou com Hugh Laurie
João Rafael Torres
| Valério Ayres/Esp. CB/D.A Press |  | Daniela exibe, orgulhosa, sua foto com a atriz Jennifer Morrisson, de house: “A maioria dos atores é gente boa”
| Fotos: Arquivo Pessoal |  | | |  | | |  | | |  | Daniela em Lincoln Heights, chocolate news, Rules of engagement e Grey´s Anatomy: participações rápidas, mas importantes para o cenário
| | | A atriz brasiliense Daniela Saraiva é testemunha ocular de diversas histórias que não cansamos de ver. Ela assistiu a cirurgias no hospital do doutor House, foi a festas em Desperate Housewives, acompanhou investigações de casos inacreditáveis em CSI. Ou seja, trabalhando como figurante, viveu de perto o que assistimos diariamente em diversos seriados americanos. Chegar até lá foi um golpe do destino: aos 17 anos, após a morte do pai, ela resolveu deixar a casa no Gama e seguiu para os Estados Unidos, onde foi morar com uma tia. O sonho de estudar teatro a colocou em Nova York e, há um ano, Daniela decidiu seguir para Los Angeles para perder o medo das câmeras e, quem sabe, enveredar na esteira que leva a Hollywood. Em passagem por Brasília para rever os parentes, Daniela conversou com a Revista sobre o mundo das séries. E confessa: ainda se sente nervosa perto de algumas celebridades.
Seu trabalho de figuração em séries americanas transformou você em uma celebridade da internet. Como isso aconteceu? As pessoas começaram a me conhecer na internet depois que eu fiz House. Sempre fui fã da série e foi o segundo ou terceiro trabalho de figuração que fiz. Resolvi colocar no Orkut que eu tinha ido, que todo mundo tinha sido bacana comigo, essas coisas… As pessoas começaram a fazer um auê por causa disso. Daí inventaram um joguinho ‘onde está a Dani?’ na comunidade do House (no Orkut). Quando me acham, mandam a foto para mim, com setinha e tudo, indicando onde estou (risos).
Como você chegou nos Estados Unidos? Fui com 17 anos. Tenho uma tia que mora em Maryland, passei um ano com ela e depois segui para Nova York para estudar teatro.
E como surgiu o convite para participar dos seriados? No ano passado, resolvi ir para Los Angeles passar um mês. Surgiu um convite para fazer figuração. Percebi que valia a pena e resolvi ficar lá por pelo menos um ano para que pudesse ganhar experiência com a câmera. Desde então, comecei a fazer seriados. Em Los Angeles, sempre há vários filmes sendo rodados ao mesmo tempo. Já fiz três: The ugly truth, que estreia lá este ano, I love you, man (Eu te amo, cara, em português) e Funny people, com Adam Sandler. Mas muitas vezes os diretores fazem questão de escolher o figurante, o que torna o trabalho com seriados mais constante. Já fiz House, Samantha who?, Grey’s anatomy, Without a trace, CSI Miami, CSI Las Vegas, Desperate housewives… Foram muitos.
Quantos, em média? Depende muito da época do ano. Agora, todas as séries estão de férias. Surgem uma ou duas participações por mês. Mas quando é época de gravação de uma temporada, aparecem três ou quatro convites por semana. Isso depende muito da sua disponibilidade, da empatia dos diretores e também de sorte.
É um serviço que paga bem? Sim, paga bem. Se você não é sindicalizado, eles pagam, em média, US$ 64 por oito horas. Para os sindicalizados, como é meu caso, o valor é de US$ 130 por oito horas. Se a gravação termina antes, você recebe o mesmo valor. Se passa, você ganha hora extra. Também tem vários outros bônus. Eles pagam uma gratificação se tiver fumaça no set, se você precisar usar uma outra roupa, se não te alimentarem a cada seis horas. Consigo viver disso e de produção no teatro.
O mercado de figuração é competitivo? Para figuração, não há competição. Há agências que cuidam exclusivamente dos figurantes. Eles selecionam você de acordo com o perfil indicado pelos diretores. Há o caso de diretores que gostam de um ator e selecionam ele para ter uma participação maior na cena, com maior interpretação. Mesmo que seja sem fala, é muito bom para o figurante. Já aconteceu comigo em três séries, como em CSI Las Vegas, na qual fui chamada a participar de uma cena com os atores principais.
Com quem foi mais bacana de contracenar? Isso foi uma coisa que me surpreendeu bastante. A maioria dos grandes atores é bem gente boa. Todos são muito profissionais. Lemos sempre que todo mundo é muito estrela, maltrata os outros, quer pintar de diva. Nunca aconteceu isso na minha frente. Gostei muito do Hugh Laurie, o doutor House. O Laurence Fishburne, que fez Matrix e agora está em CSI Las Vegas, também é bastante engraçado. A Debra Messing (a Grace, de Will & Grace) também é muito, muito simpática. Gerard Butler, que fez 300, é outro que é muito divertido. Até agora, não contracenei com ninguém chato. Acontece muito de eles precisarem se concentrar no papel, daí não tem como puxar papo. Mesmo assim, eles olham, dão um sorriso. Também me surpreendi com a beleza de algumas pessoas. A Nicollete Sheridan, de Desperate housewives, é muito bonita e tem um corpo perfeito.
Já descobriu alguma farsa da beleza? (Risos) As pessoas são sempre mais bonitas pessoalmente. Não lembro de ter achado alguém feio. Também, quando os encontro, todos estão maquiados e bonitos. Uma coisa é interessante: as pessoas são mais baixas e bem mais magras do que aparentam na televisão.
Quais as regras? O que pode e o que não pode? A regra geral é o bom senso. Se o ator está numa sequência de gravação, não fica bem ir lá para conversar. Também é preciso ficar calado no set. Cada produção tem as suas próprias regras. Alguns não nos deixam tirar fotos.
O sigilo também é uma exigência? O sigilo é uma regra geral: não podemos comentar nada do que vimos ser gravado. Podemos até falar com quem gravamos, mas nunca o que os atores faziam em cena. Há uns dois meses, fiz House mais uma vez e uma figurante descreveu na internet a cena que tinha participado como striper. Sem maldade, ela acabou revelando um grande spoiler da série. Muitas pessoas perguntam, mas eu sempre respondo que não posso falar.
Quais as séries que você acompanha? Só vejo House e Dexter porque sou daquele tipo de telespectadora viciada. Sempre o Doutor House… Sim, sim… Só ele me deixa nervosa. E foi com o Hugh Laurie (que vive o médico na série) que vivi meus dois grandes micos da profissão. Primeiro, era para que eu passasse por trás dele em uma cena e, sem motivo, parei muito perto e fiquei respirando no seu pescoço, completamente ofegante. Só percebi quando ele virou para trás, com cara de ‘o que ela quer aqui?’. Outra vez, encontrei ele saindo do set. Ele esbarrou em mim, me segurou pelos braços e pediu desculpa. Fiquei muito nervosa e não disse nada. Achei que ia ficar estranho não responder e, chamei ele pelo nome e soltei um ‘eu te amo’. Não queria dizer aquilo, queria dizer que amava o doutor House. Ele ficou me olhando, intrigado. Fiquei ainda mais atrapalhada e tentei justificar, dizendo que falava do personagem. ‘Eu amo o House, e gosto de você como ator. Não, não, eu gosto de você e gosto do House…” O nervosismo aumentou, eu derrubei uma caneta que tinha na mão… Ele só ria. No final, abriu a porta para que eu passasse, com um “senhoras primeiro”. Dei um “não, obrigada”. Ele só ria, ria muito! Depois, me agradeceu. Disse que eu era muito gentil. “Não, gentil é você.” E saí completamente errada!
Quais as suas chances de deixar a figuração para estar em primeiro plano nas séries? Eu entrei para a figuração com o intuito de me acostumar com a câmera e com os termos da televisão. Fiz teatro em Nova York, mas ainda sofria para ignorar a câmera. Estudei interpretação para me aprimorar, para não ficar nervosa. Acredito que a pessoa que é determinada, está realmente disposta e conta com um pouco de sorte pode chegar lá. Uma hora vai acontecer. |
|